discos

 

ramilonga
à beça
1995

1. Minha virgem
2. Folhinha
3. Não é céu
4. Grama verde
5. Deixa eu me perder
6. Café da manhã
7. O livro dos porquês
8. Foi no mês que vem
9. Sol
10. À beça
11. A invenção do olho
12. A resposta
13. Namorada não é noiva
14. Barroco

 

 

MINHA VIRGEM
Vitor Ramil

Eu chego e paro e fico e digo enfim que sim eu também
Que devo e posso e quero e rezo enfim e como ninguém
Quando a minha virgem estende a mão
Quando a minha virgem estende a mão

E indo e dentro e longe e chego enfim no colo de alguém
Eu digo e paro e fico e chego enfim que sim eu também
Quando a minha virgem estende a mão
Quando a minha virgem estende a mão

E quando eu canso e durmo dentro dela
E um anjo se diverte sobre mim
A virgem faz que sim
A virgem sempre diz que sim

Eu dentro e longe e quieto e indo enfim e como ninguém
Eu rezo e digo sim e resto enfim no colo de alguém
Quando a minha virgem estende a mão
Quando a minha virgem estende a mão

 

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FOLHINHA
Vitor Ramil / André Gomes

Dia útil
Nem ligar
Nem me aborrecer
Não me deixa mal

Dia útil
Me esquecer
De comemorar
Que é que eu vou fazer?

Se a ilusão
Vai de trem
O teu dia chega
E é voando que eu vou te ver

Dia meu
Outra vez
Dou adeus
Disse um verso bonito
E te fiz o bem

Sexta-feira
Me entortar
Como Hemingway
Não me deixa mal

Todo o sábado
Também
Me entortar de vez
Que é que eu vou fazer?

Fico são
De manhã
O domingo inteiro
Trabalho que nem um cão

Nem ligar
Já falei
É segunda de novo
Eu não quero me aborrecer

Só quero uma folhinha
Deusas nuas na cozinha
Ai, que dia bom!
Só quero uma folhinha
Deusas nuas na cozinha
Ai, que dia bom!

Dia santo
Ir ao céu
Me ocupar com Deus
Não me deixa mal

Mas, feriado
Eu nunca sei
O que vou fazer
Que é que eu vou fazer?

Se abre o sol
Na TV
Fica o dia lindo lá fora
E ninguém me vê

Dia ruim
Esse sim
Vou pra rua, adoeço
E ninguém vem cuidar de mim

 

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NÃO É CÉU
Vitor Ramil

Não é céu sobre nós
Dele essa noite não veio
E muito menos vai o dia chegar

Se chegar, não é sol
Quem sabe a luz de um cigarro
Que desaba do vigésimo andar

É fogo, mora
Deixa essa brasa descer lá fora
Deixa o mundo todo queimar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Se fosse o céu que se conta
Não seria a ponta acesa a brilhar

Se brilhou, não é sol
Se fosse o sol desabando
Nem meu quarto ia poder te salvar

É fogo, mora
Gente na brasa a gritar lá fora
Só nos falta Nero cantar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Não vimos noite passando
E essa luz não fez o galo cantar

Se cantou, não é sol
Dia nascendo normal
A gente acorda e não costuma gritar

É fogo, mora
Deixa essa brasa sumir lá fora
Deixa o galo nos acordar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

 

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GRAMA VERDE
Música: André Gomes e Vitor Ramil
Letra: Vitor Ramil


Pintei de verde a grama em dia claro
De verde forte e falso e vivo e raro
Que seja a grama brutal
Se eu quero a cena ideal

Na luz do dia não passei a tinta
Que luz tão clara só com sol se pinta
Que seja o dia real
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar

Pintei a grama pro teu passo é claro
Teu passo forte e falso e vivo e raro
Que seja o passo banal
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar
Só passar

 

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DEIXA EU ME PERDER
Vitor Ramil / André Gomes

Deixa eu me perder
Pequeno mundo meu
Menos que esquecer
Ficar dizendo coisas
Que não me vêm

Ontem eu sumi
Parece estranho, eu sei
Mas escureceu
Pequeno mundo meu
Eu anoiteci

Perdido dentro da paisagem
O carro leva minha imagem
Não acho o que me dizer
Não sei o que quero achar
No rádio essa voz me diz
Que a vida é o melhor lugar
Pode ser

Tudo que eu segui
Viaja atrás de mim
Coisas, quando vêm
São coisas que se vão
Sem eu perceber

Amanhã também
Parece estranho, eu sei
Mas eu vou sair
Pequeno mundo meu
Deixa eu me perder

Deixa eu me perder

 

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CAFÉ DA MANHÃ (D’après Prévert)
Vitor Ramil

Ela vem pra mesa da manhã
Põe na taça um pouco de café
Ela pega o leite que eu fervi
E enche a taça tanto quanto der
Sem me falar
Sem me olhar
Põe açúcar no leite com café
Mexe bem devagar com a colher
Bebe tudo com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Ela esquece o gosto do café
Põe os olhos vagos no jornal
Ela pega a parte que eu já li
E abre como um muro entre nós
Sem me falar
Sem me olhar
Pega e acende um cigarro teatral
Solta anéis de fumaça pelo ar
Bate a cinza com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Tudo o que ela quer
É me ver chorar
Mas chorar de manhã
É tão fácil
Eu quero é mais

Ela sai da mesa do café
Põe no espelho a cara e se acha bem
Ela veste um lance pra sair
E por cima a capa que eu dei
Sem me falar
Sem me olhar
Abre a porta num gesto natural
Olha a rua, olha as horas, olha o céu
Sai na chuva com a calma que não tem
Não me olha
Não diz nada

Tudo o que ela quer
É me ver chorar
Mas chorar de manhã
É tão pouco
Que eu quero é mais

 

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O LIVRO DOS PORQUÊS
Vitor Ramil

Porque nos inquietamos?
Sabem os girinos que hão de perder as suas caudas?
Sabem as galinhas que hão de sair pintos dos seus ovos?
Porque cacarejam as galinhas depois de pôr o ovo?
A clara do ovo faz parte do pinto?
Porque a fervura amolece as batatas e endurece os ovos?
O ovo respira?
Os vermes respiram debaixo da terra?
As sementes respiram?
Na semente está contida toda a planta?
A relva vulgar dá flores?
Porque as árvores não morrem no inverno como as flores?
Porque que a luz desbota os tapetes e não desbota as flores?
Porque que a luz não pode dobrar na esquina?
Porque é que dois lados de um caminho reto se encontram ao longe?
Se caminhássemos infinitamente para cima, onde iríamos parar?
É prejudicial o uso de salto alto?
Como é que as moscas podem andar pelo teto?
Porque vemos uma mancha negra no céu depois de olharmos para o sol?
Até onde a nossa vista alcança?

Pra onde vai a água da chuva?
Porque os caminhos ficam cheios de rãs depois da tempestade?
Porque se avista um espaço tão grande de uma janela tão pequena?
Qual é a origem dos pensamentos?
Podemos pensar no que não nos interessa?
Porque nos dói a cabeça?
Porque não estamos nunca satisfeitos?
O que é que faz voar os papagaios?
Porque é que o cão anda em círculos antes de se deitar?
Os cães podem raciocinar?
Porque não grunhimos como os cães quando temos fome?
O cérebro precisa de alimento?
O cérebro do talentoso é maior que o do imbecil?
Porque aprendemos Latim, se é uma língua que não se fala em parte alguma?
Porque faz mais calor na Índia que no Alaska?
Já se descobriu o mundo todo?
Porque nos parece que os campos se movem quando vamos num trem?
Porque temos tendência a correr pelas encostas abaixo?
Convém ter sempre alguma coisa que fazer?
Porque nos esquecemos de umas coisas e lembramos de outras?
Porque não temos tudo o que precisamos?
O que é uma garrafa térmica?
Porque é que as mulheres usam anel de núpcias?
Porque usamos trajes claros no verão e escuros no inverno?
Onde se escondem as moscas no inverno?
Poderíamos ver se não tivéssemos cérebro?

 

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FOI NO MÊS QUE VEM
Vitor Ramil

Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu

Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

 

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SOL (Depois de Oswald)
Vitor Ramil

Vejo o sol
Quem não vê o sol?
Tem sol aqui
E se eu andar
Ali também tem sol
Qualquer lugar
É cheinho de sol
Sol quando é noite
É que não

Sob o sol
Sobretudo sol
Tem sol em ti
Se eu te abrigar
Em mim também tem sol
Qualquer lugar
É cheinho de sol
Sol quando é noite
É que não

Sempre sol
Semprevivo sol
Tem sol demais
Fora os demais
Sempre nos resta o sol
Qualquer lugar
É cheinho de sol
Sol quando é noite
É que não

Vejo o sol
Quem não vê o sol?
Tem sol aqui
E se eu andar
Ali também
Tem sol

 

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À BEÇA
Vitor Ramil

Dia de sair
Ir naquela idéia radical
Tudo o mesmo, nada sendo igual
Tudo pra valer

Dia de sair
Ritmo daqueles de viver
Tudo exato e fora do lugar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Dia de sair
A palavra dita assim no mais
Tudo bem pensado, sem pensar
Tudo pra valer

Dia de sair
De dizer verdades por dizer
Versos sobre a areia à beira mar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Com que roupa eu vou?
Dia de sair
À beça!

 

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A INVENÇÃO DO OLHO
Vitor Ramil

Não estive atado a Deus
No sonho de Moisés
A cabeça ardendo ao sol
Serpentes nos meus pés

Desejei de Homero a escuridão
Mas nas trevas me perdi
Fui então ao sol me fez
Um relógio de Dali

Esquecer depois lembrar
Os cheiros de um jardim
Muito aquém dos animais
Humano além de mim

Mas se estive mesmo atado a Deus
Tive os sonhos aos meus pés
A cabeça a pino sobre o sol
E as serpentes com Moisés

Hoje acho com razão que nada é bem assim
E essa razão, de onde vem?

A invenção do olho pôs
As coisas no lugar
Mundo posto me servi
A vida é meu jantar

Misturei ao tédio o amor cortês
Quando a musa bem me quis
Quando a sorte deu-me de beber
Dei um gole e fui feliz

Esquecer depois lembrar
Os cheiros de um jardim
Muito aquém dos animais
Humano além de mim

Se a invenção do olho nunca pôs
Cada coisa em seu lugar
Posto em vida ao mundo sem pedir
Fui servido no jantar

Hoje acho com razão que nada é bem assim
E essa razão, de onde vem?

No futuro espiarei
A vida ao revés
Feito isso escreverei
Que Deus sonhou Moisés

 

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A RESPOSTA
Vitor Ramil

O homem caminho só na estação
Vindo de todo trem de todo lugar
Chega na banca e olha o jornal
Tira do bolso o último cigarro
Ri da notícia antes de ler
Rindo se esquece o que ia fazer
Olha o cigarro solto na mão
Bota outra vez no bolso sem perceber
Dá um passo em falso
E pega o braço de uma mulher que passa
E pergunta pra ela
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?

A mulher livra o braço e se vai
Corre e ainda pega o trem pega o seu lugar
Lá num vagão com gente demais
Pensa que tudo é doido nessa vida
Ri da resposta que ia dar
Rindo se esquece o que ia falar
Enche a paisagem com seu olhar
Passa com ela e vê que ficou lá atrás
Chega em casa calada
E se senta com um cara que não diz nada
E pergunta pra ele
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?

 

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NAMORADA NÃO É NOIVA
Vitor Ramil / Paulo Seben

Namorada não é noiva
Noiva não é casada
Casada não é morta
Morta não é enterrada
Enterrada não é podre
Podre não é osso
Osso não é pó
Pó não é vento
Vento não é vácuo
Vácuo não é ausência

Ausência não é erro
Erro não é maldade
Maldade não é crime
Crime não é indulgência
Indulgência não é medo
Medo não é pouco
Pouco não é só
Só não é nada
Nada não é falta
Falta não é desespero

Desespero não é vício
Vício não é algema
Algema não é muro
Muro não é violência
Violência não é gelo
Gelo não é culpa
Culpa não é dor
Dor não é grito
Grito não é boca
Boca não é linguagem

Linguagem não é língua
Língua não é gengiva
Gengiva não é lábio
Lábio não é umidade
Umidade não é graxa
Graxa não é fogo
Fogo não é sol
Sol não é centro
Centro não é meta
Metanamorada

Namorada não é noiva

 

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BARROCO
Vitor Ramil

Eu to girando pelo quarto
Olhando o teto abobadado
No centro exato de um palácio
Com dez mil nobres no meu rastro
Eu vejo o ouro brasileiro
O terremoto de Lisboa
Os espanhóis sonhando o mundo
Os jesuítas no meu rastro

No claro-escuro
É que ela me vê
E diz assim:
“Sai daí
Vem pra mim
O paraíso fica aqui”
Eu, dividido, digo:
“Se eu tiver que ler tudo do Barroco
Que tempo vai sobrar pra minha nêga?”

Jerusalém foi libertada
O Conde Orgaz bateu as botas
Os santos sobem pelos ares
Santa Teresa no meu rastro
Vejo cabelos no retrato
Um movimento me arrebata
É Pedro, o Grande, em seu cavalo
Trezentos frades no meu rastro

Tenho jardins à minha volta
O povo longe, além das grades
Mas Holandeses que me azaram
E tenebrosos no meu rastro
Tô violento e apaixonado
Absoluto e perturbado
É que tem ecos pela sala
De alguém furioso no meu rastro

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