discos

 

tambong
estrela, estrela
1981

1. Assim, assim
2. Tribo
3. Engenho
4. Estrela, estrela
5. Um e dois
6. Mina de prata
7. Noite e dia
8. Aldeia
9. Epílogo

 

 

ASSIM, ASSIM
(Vitor Ramil – Kledir Ramil)

sinceramente não vou ficar
passando a limpo meu coração
roendo as unhas, pensando em voz alta
botando os pingos nos ii
falando sério eu já cansei
de revirar minhas emoções
de vasculhas as gavetas
do armário embutido da nossa paixão
beijos, estou de saída
vou reinventar minha vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, amiga
pra que disfarçar nossa solidão?

se continuasse assim, assim
um dia a gente ia terminar
saindo pela tangente
ou desidratado de tanto chorar
na certa ainda vais remexer
nisso ou naquilo até concordar
que o nosso erro foi não conjugar
aos limites o verbo amar
registra minha partida
no arquivo da tua vida
vida, vida
eu preciso viver
hei, amiga
pra que disfarçar nossa solidão?

 

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TRIBO
Vitor Ramil

levantar mais cedo
com as cordilheiras
calar as estrelas
como as cigarras
acordar a tribo
para um novo dia
colher o centeio
pra fazer o pão
dividir a plantação

recolher os frutos
para pôr à mesa
comer nossa safra
que rompeu da terra
brincar entre os juncos
ou regar as plantas
e sentarmos juntos
para o fim do dia
todo tempo é de viver

homens e mulheres
sobre o mesmo chão
livres como a chuva
que transborda o rio
trabalhamos todo dia
nossa vida em comum

abraçar a noite
como a luz da lua
e acender o fogo
pra nos dar carinho
dar nossos corpos
pra gerarmos filhos
como nasce a erva
sobre a terra nua
e poder dormir em paz

 

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ENGENHO
Vitor Ramil

o amanho dessa Terra
tem de iluminar
e o centeio cultivado
há de amarelar
e as migalhas do teu seio
hão de alimentar meu peito
que sente tanta dor por ti

o açúcar dessa eira
tem de aumentar
pois meus olhos
são sementes
desse canavial
e a voagem
dos teus pêlos
há de ser o pó do mundo
...e a força dessas mãos...

(carrega cana do engenho
sustenta o fardo da vida
brota do corpo da Terra.)

 

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ESTRELA, ESTRELA
Vitor Ramil

estrela, estrela
como ser assim
tão só, tão só
e nunca sofrer
brilhar, brilhar
quase sem querer
deixar, deixar
ser o que se é

no corpo nu
da constelação
estás, estás
sobre uma das mãos
e vais e vens
como um lampião
ao vento frio
de um lugar qualquer

é bom saber
que és parte de mim
assim como és
parte das manhãs
melhor, melhor
é poder gozar
da paz, da paz
que trazes aqui

eu canto, eu canto
por poder te ver
no céu, no céu
como um balão
eu canto e sei
que também me vês
aqui, aqui
com essa canção

“sãhnam sad etrap sé omoc missa
mim ed etrap sé euq rebas mob é”

 

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UM E DOIS
Vitor Ramil

estamos tão distantes
e sempre tão presentes
nas canções que eu canto
nas canções que cantas
sinto a tua calma
a tua presença
perto do meu peito
dentro do meu quarto
passam muitos dias
na força dos ventos
e seguimos, um e dois
homens se superam
povos se sucedem
e continuamos, um e dois

que coisa mais estranha
vivemos tão freqüentes
na canção mais simples
que o tempo ensina
sei tuas mentiras
sei tuas verdades
nada mais se esconde
quando estamos juntos
passam muitos dias
na força dos ventos
e seguimos, um e dois
homens se superam
povos se sucedem
e continuamos, um e dois

 

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MINA DE PRATA
(Arthur Nestrovski – Vitor Ramil)

coração, melhor ser sincero
que estar escondido
sob a sombra das cruzes

ter as mãos
abertas ao vento
melhor que juntá-las
pelo medo da vida

de que vale o depois
se o presente está só
por que sofrer?
terra sobre os olhos
cheios de pudores
e o peito ardente

e, por fim
melhor argüente
que estar prisioneiro
dessa mina de prata

 

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NOITE E DIA
Pery Souza / Vitor Ramil

meu amigo, a vitória é demorada
mas a gente não pode descansar
é preciso usar com muita calma
os momentos que a vida emprestar
no trabalho ou no canto
vê se sempre
carrega contigo o teu amor
um abraço e um beijo
são vitórias
te agarra nas mãos
da rebeldia
e verás o teu povo levantar

acredita num tempo em que o mate
só é dado com a mão do coração
onde o homem
que é homem de verdade
não precisa brigar pra dar lição
pelas ruas e bares da cidade
carrega contigo teu amor
um sorriso trocado é uma vitória
carrega a bandeira da alegria
e verás o teu povo levantar

planta noite e dia
dentro do teu peito, irmão
todas as verdades
que esse é o nosso
jeito de vencer

meu amigo procura ir inteiro
em qualquer coisa que chame por ti
tua fé, o teu sangue e tua força
acrescenta aos acordes da canção
na mais simples batalha
não esquece
carrega contigo o teu amor
como o trigo que nasce em liberdade
verás o teu povo pelas praças
cantando a canção de levantar

 

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ALDEIA
Arthur Nestrovski / Vitor Ramil

na minha aldeia
descansam viajantes e ladrões
e as caravanas acampam
e as mulheres
fazem pão
negros e hindus
brancos, índios
todos habitam minha aldeia
eles são artesãos
negros e hindus
brancos, índios
todos trabalham minha aldeia
como a abelha faz o mel

 

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EPÍLOGO
Vitor Ramil

não adianta me dizer
que tudo isso carece
de explicação
pois eu já disse
que o problema
não é medo de te amar
é que é tão ruim
eu só tocar
nos teus cabelos, nos teus dedos
(carne e osso sem tempero)
com anéis
não vais conseguir
me ajudar
nem retirar a minha dor
com perguntas
com olhares
pois já falei:
quem eu amo não existe

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