discos

 

foi no mês que vem
foi no mês que vem
2013

Disco 1

1. Foi no mês que vem
2. Livro Aberto
3. Loucos de Cara
4. Não é Céu
5. Estrela, Estrela
6. Invento
7. Espaço
8. Sapatos em Copacabana
9. Longe de Você
10. Perdão
11. A Resposta
12. Valérie
13. À Beça
14. Noturno
15. Noa Noa
16. Ramilonga

 

Disco 2

1. Astronauta Lírico
2. Viajei
3. Grama Verde
4. Neve de Papel
5. Deixando o Pago
6. Que Horas Não São
7. Ibicuí da Armada
8. Passageiro
9. Joquim
10. Quiet Music
11. O Primeiro Dia
12. Livros no Quintal
13. O Tango da Independência
14. Noite de São João
15. Milonga de Sete Cidades
16. Satolep

 

 

FOI NO MÊS QUE VEM
Vitor Ramil

Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu

Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

 

voltar

 

LIVRO ABERTO
Vitor Ramil

Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

 

voltar

 

LOUCOS DE CARA
Kleiton Ramil / Vitor Ramil

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa
que Deus jogue pesadas moedas do céu
vire sacolas de lixo pelo caminho
Se na praça em Moscou
Lênin caminha e procura por ti
sob o luar do oriente
fica na tua
Não importam vitórias
grandes derrotas, bilhões de fuzis
aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros
lotam navios e decoram canções
fumam haxixe na esquina
fica na tua

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa
que Lennon arme no inferno a polícia civil
mostre as orelhas de burro aos peruanos
Garibaldi delira
puxa no campo um provável navio
grita no mar farroupilha
fica na tua
Não importa
que os vikings queimem as fábricas do cone sul
virem barris de bebidas no Rio da Prata
M´boitatá nos espera
na encruzilhada da noite sem luz
com sua fome encantada
fica na tua

Poetas loucos de cara
Soldados loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Parceiros loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Se um dia qualquer
tudo pulsar num imenso vazio
coisas saindo do nada
indo pro nada
se mais nada existir
mesmo o que sempre chamamos REAL
e isso pra ti for tão claro
que nem percebas
se um dia qualquer
ter lucidez for o mesmo que andar
e não notares que andas
o tempo inteiro
É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem
se ele é azul, não importa
fica na tua

Videntes loucos de cara
Descrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Latinos, deuses, gênios, santos, podres
ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios
bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

 

voltar

 

NÃO É CÉU
Vitor Ramil

Não é céu sobre nós
Dele essa noite não veio
E muito menos vai o dia chegar

Se chegar, não é sol
Quem sabe a luz de um cigarro
Que desaba do vigésimo andar

É fogo, mora
Deixa essa brasa descer lá fora
Deixa o mundo todo queimar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Se fosse o céu que se conta
Não seria a ponta acesa a brilhar

Se brilhou, não é sol
Se fosse o sol desabando
Nem meu quarto ia poder te salvar

É fogo, mora
Gente na brasa a gritar lá fora
Só nos falta Nero cantar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Não vimos noite passando
E essa luz não fez o galo cantar

Se cantou, não é sol
Dia nascendo normal
A gente acorda e não costuma gritar

É fogo, mora
Deixa essa brasa sumir lá fora
Deixa o galo nos acordar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

 

voltar

 

ESTRELA, ESTRELA
Vitor Ramil

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer

Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é

No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos

E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs

Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão

Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção

 

voltar

 

INVENTO
Vitor Ramil

Vento
Quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interior

Alma
De flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valor

Vento
Que varre os segundos
Prum canto do mundo
Que fundo não tem

Leva
Um beijo perdido
Um verso bandido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

Vento
Que dança nas praças
Que quebra as vidraças
Do interior

Alma
Que arrasta correntes
Que força os batentes
Que zomba da dor

Vento
Que joga na mala
Os móveis da sala
E a sala também

Leva
Um beijo bandido
Um verso perdido
Um sonho refém

Que eu não possa ler, nem desejar
Que eu não possa imaginar

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar

 

voltar

 

ESPAÇO
Vitor Ramil

Quarto de não dormir
Sala de não estar
Porta de não abrir
Pátio de sufocar

Carta no corredor
Eu não vou nem pegar
A voz no gravador
Não quero escutar

A lua é um farol
O vento, um assobio
A foto é um out-door
Teu rosto em 3x4
Mostra que

Tudo
Na madrugada
Insiste em ficar
Já que existe
Tanto espaço em mim

Juro
Na luz do dia
Todas as coisas
Vão me perder
Como te perdi

 

voltar

 

SAPATOS EM COPACABANA
Vitor Ramil

Caminharei os meus sapatos em Copacabana
Atrás de livro algum pra ler no fim de semana
Exercitar aquela velha ótica sartreana
Vendo o maxixe falso da falsa loira falsa bacana

O mendigo ensaia o passo lento um carro avança

Sei que não tenho idade
Sei que não tenho nome
Só minha juventude
O que não é nada mal

(escreverei os meus sapatos na tua idéia
escreverei os meus sapatos na tua postura
escreverei os meus sapatos na tua cara
escreverei os meus sapatos no teu verbo
escreverei os meus sapatos nos teus
Copacabana)

Regressarei os meus sapatos por Copacabana
Na mão direita o sangue de uma história italiana
Escorregar um tango numa casca de banana
Quando cair só vou lembrar da tua risada sacana

O polícia esquece a mão suspensa um carro avança

Sei que não tenho idade
Sei que não tenho nome
Só minha juventude
O que não é nada mal

(as negras pupilas do verso dilatam)
(os automóveis jorram de um piano)
(as negras pupilas do verso dilatam)
(os automóveis jorram de um piano)

 

voltar

 

LONGE DE VOCÊ
Vitor Ramil

Tô vivendo em outra dimensão
Longe de você
Habitando o fundo de um vulcão
Que eu domestiquei

Todo o dia deixo o sol entrar
Mas a luz não vem
A janela em mim é tão brutal
Causa esse desdém

Meu relógio em outra dimensão
Corre de você
Solto o pensamento num tufão
Finjo que pensei

Todo dia o dia quer passar
Mas o fim não vem
A espera é sempre tão brutal
Tudo se mantém

Acredito em outra dimensão
Longe de você
Lava, fogo, cinza, solidão
Já me acostumei

Todo o dia posso te encontrar
Mas você não vem
O deserto em volta é tão brutal
Sempre te detém

 

voltar

 

PERDÃO
Vitor Ramil
(Melodia e letra para o prelúdio BWV 999 de J. S. Bach)

Perdôo o sol
Que aquece meu corpo
Perdôo o ar
Que me alimenta
Perdôo a dor
Que desistiu de mim
E a solidão
Que não foi tanta como eu quis
A quem me quer
A quem me vem
A quem me ama
Quero perdoar
Ao violão, à voz
A tudo que soa e salva
Meu perdão
Perdôo o quanto me fui
Do que me fiquei
Por me levar
Por não saber
O mal que me fiz

 

voltar

 

A RESPOSTA
Vitor Ramil

O homem caminho só na estação
Vindo de todo trem de todo lugar
Chega na banca e olha o jornal
Tira do bolso o último cigarro
Ri da notícia antes de ler
Rindo se esquece o que ia fazer
Olha o cigarro solto na mão
Bota outra vez no bolso sem perceber
Dá um passo em falso
E pega o braço de uma mulher que passa
E pergunta pra ela
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?

A mulher livra o braço e se vai
Corre e ainda pega o trem pega o seu lugar
Lá num vagão com gente demais
Pensa que tudo é doido nessa vida
Ri da resposta que ia dar
Rindo se esquece o que ia falar
Enche a paisagem com seu olhar
Passa com ela e vê que ficou lá atrás
Chega em casa calada
E se senta com um cara que não diz nada
E pergunta pra ele
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?

 

voltar

 

VALÉRIE
Vitor Ramil

O rosto se perdeu
O gesto se desfez
Depois daquele beijo teu
Nada real ficou

Nenhuma lágrima
Nenhuma dor sequer
Só o mistério desse amor
Pelo que já não sei

Valérie
Quero te ver
Só pra te esquecer

 

voltar

 

À BEÇA
Vitor Ramil

Dia de sair
Ir naquela idéia radical
Tudo o mesmo, nada sendo igual
Tudo pra valer

Dia de sair
Ritmo daqueles de viver
Tudo exato e fora do lugar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Dia de sair
A palavra dita assim no mais
Tudo bem pensado, sem pensar
Tudo pra valer

Dia de sair
De dizer verdades por dizer
Versos sobre a areia à beira mar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Com que roupa eu vou?
Dia de sair
À beça!

 

voltar

 

NOTURNO
Vitor Ramil

Eu lembro cada momento
De cada noite sumida
Tudo de uma vez
Numa esquina

A tua pele de lua
O meu olhar de neblina
Tudo de uma vez
Numa esquina
De nós dois

Eu sinto cada desejo
De cada rua partida
Tudo de uma vez
Cada esquina
De nós dois

 

voltar

 

NOA NOA
Vitor Ramil
(Para Cleber Teixeira)

Paul Gauguin,
vendo o sol
habitar
o que vê,
diz adeus
ao ocaso ocidental.

Verde mar
de coral
a seus pés,
e um céu
violetamente céu.

Amanhã,
talvez depois
de amanhã,
quando for
o que for
acontecer;
talvez
a cada manhã,
o suor
do trabalho
e do prazer.

O amor
logo vem
ser o sol
que ele vê;
a mulher
veste o ouro da nudez.

Paul Gauguin
é feliz,
afinal.
Também nós
o seremos uma vez.

 

voltar

 

RAMILONGA
Vitor Ramil

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

 

voltar

 

ASTRONAUTA LÍRICO
Vitor Ramil

Vou viajar contigo essa noite
Conhecer a cidade magnífica
Velha cidade supernova
Vagando no teu passo sideral

Quero alcançar a cúpula mais alta
Avistar da torre a via-láctea
Sumir ao negro das colunas
Resplandecer em lâmpadas de gás

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo
A lua que ao te ver parece grata
Me aceita com a forma de um sorriso
Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

Quero perder o medo da poesia
Encontrar a métrica e a lágrima
Onde os caminhos se bifurcam
Flanando na miragem de um jardim

Quero sentir o vento das esquinas
Circulando a calma do meu íntimo
Entre a poeira das palavras
Subir na tua voz em espiral

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo
A lua que ao te ver parece grata
Me aceita com a forma de um sorriso
Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

Vou viajar contigo essa noite
Inventar a cidade magnífica
Desesperar que o dia nasça
Levado em teu abraço sideral

Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo

 

voltar

 

VIAJEI
Vitor Ramil

Viajei
Ligado num segundo
No seguinte, desliguei
Do que eu ia dizer

Divaguei
Devagarinho, evoluindo
Num carinho teu
Perdido a me perder

Mar adentro, noite afora
Agora, amor
É hora de querer
Dessa vida a proa
Sem sentido, à toa
As ondas de carinho
Levaram as palavras
Mas eu sigo indo
As ondas são caminhos

Já não sei
Do tanto que eu diria
O quanto que me dispersei
Não quero nem pensar

Viajei
Viagem boa
A gente não enjoa de esquecer
Que um dia vai voltar

Mar adentro, noite afora
Agora, amor
É hora de ficar
Nessa vida à toa
Sem sentido a proa

As ondas de carinho
Levaram as palavras
Mas eu sigo indo
As ondas são caminhos

Viajei, viajei
Viajei, viajei

 

voltar

 

GRAMA VERDE
Música: André Gomes e Vitor Ramil
Letra: Vitor Ramil

Pintei de verde a grama em dia claro
De verde forte e falso e vivo e raro
Que seja a grama brutal
Se eu quero a cena ideal

Na luz do dia não passei a tinta
Que luz tão clara só com sol se pinta
Que seja o dia real
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar

Pintei a grama pro teu passo é claro
Teu passo forte e falso e vivo e raro
Que seja o passo banal
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar
Só passar

 

voltar

 

NEVE DE PAPEL
Vitor Ramil

Quem se vai ali
Olha, sou eu
Sob a neve de papel
Que cai de um céu
De janelas do ano que foi
Será que vem
Alguma carta pra mim?

Mas de quem virá?
O que irá dizer?
“Que surpresa encontrar
Você aqui”
São janelas feitas de ar
Todas iguais
Qual delas se abre por mim?

Que me vou por ali
Que fiquei por aqui

Quem ficou ali
Olha, sou eu
Sobre a neve de papel
No chão, ao léu
Folhas brancas, contas, jornais
Onde estará
Aquela carta pra mim?

Que me vou por aqui
Que fiquei por ali

 

voltar

 

DEIXANDO O PAGO
poema: João da Cunha Vargas
música: Vitor Ramil

alcei a perna no pingo
e saí sem rumo certo
olhei o pampa deserto
e o céu fincado no chão
troquei as rédeas de mão
mudei o pala de braço
e vi a lua no espaço
clareando todo o rincão

e a trotezito no mais
fui aumentando a distância
deixar o rancho da infância
coberto pela neblina
nunca pensei que minha sina
fosse andar longe do pago
e trago na boca o amargo
dum doce beijo de china

sempre gostei da morena
é a minha cor predileta
da carreira em cancha reta
dum truco numa carona
dum churrasco de mamona
na sombra do arvoredo
onde se oculta o segredo
num teclado de cordeona

cruzo a última cancela
do campo pro corredor
e sinto um perfume de flor
que brotou na primavera.
à noite, linda que era,
banhada pelo luar
tive ganas de chorar
ao ver meu rancho tapera

como é linda a liberdade
sobre o lombo do cavalo
e ouvir o canto do galo
anunciando a madrugada
dormir na beira da estrada
num sono largo e sereno
e ver que o mundo é pequeno
e que a vida não vale nada

o pingo tranqueava largo
na direção de um bolicho
onde se ouvia o cochicho
de uma cordeona acordada
era linda a madrugada
a estrela d’alva saía
no rastro das três marias
na volta grande da estrada

era um baile, um casamento
quem sabe algum batizado
eu não era convidado
mas tava ali de cruzada
bolicho em beira de estrada
sempre tem um índio vago
cachaça pra tomar um trago
carpeta pra uma carteada

falam muito no destino
até nem sei se acredito
eu fui criado solito
mas sempre bem prevenido
índio do queixo torcido
que se amansou na experiência
eu vou voltar pra querência
lugar onde fui parido

 

voltar

 

QUE HORAS NÃO SÃO?
Vitor Ramil
Participação especial Kátia B

Que horas não são?
A onda nunca vai quebrar
É sempre a mesma estação
O sol queimando o teu olhar

Deus fez o céu
E pôs a terra pra rodar
Ela empacou no sinal
Do sol brilhando em teu olhar

Que horas não são?
A gente imóvel num cartão postal
Seca e verão
É o sol no teu olhar

Olha pro chão
Um gesto teu e a onda vai quebrar
A terra cruza o sinal
O sol é a desculpa pra chorar

 

voltar

 

IBICUÍ DA ARMADA
Vitor Ramil

Entre o meu e o teu ser
Tudo é permitido
Lambaris de cristal
E um bugio largado e rouco
De uma cordeona fantasma
Teu eco me responde
No timbre dos caudilhos!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

Um silêncio muito antigo
Cai sobre os insetos
Chegam homens maragatos
Num pequeno bote
Que encosta sem pressa
Na outra margem
O ronco da queda d’água
Me chama de louco!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

São três homens
Três facões
Com três lenços rubros
São três sombras
Três chapéus
Que entram pela mata
Três luas brilhando no aço
São três degoladores
Por sorte não me viram!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

As cigarras recomeçam
Com seu canto triste
Eu mergulho como um bicho
E nadando em águas profundas
Revelo poemas aos peixes
São versos do soldado
Do poeta russo!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

Limo e verbo
Lodo e rima
Louca a bala
Laica
Correnteza
Movimentos
Lanço a poesia molhada
Ao toque dos seres gelados
E quando volto à tona
Os homens me descobrem!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

São três palas
Três anéis
Com três vozes duras
São três golpes
Três metais
E as três luas me partem ao meio Brilhando no espelho
Das lâminas
Meu corpo vai-se embora
Na trilha das traíras
E minha cabeça livre
No gelo dos cometas!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito!

 

voltar

 

PASSAGEIRO
Vitor Ramil

Passos sem direção
Eu ando só
Na madrugada
Preciso te encontrar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

A vida me esqueceu
Atrás de alguém
Que não me escuta
Preciso te falar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

Não há caminhos que eu deva seguir
Não tenho certeza se vou te encontrar
Grito teu nome
Que o eco me devolve
Em nomes sem sentido

Não há sinais que eu deva seguir
Não tenho uma pista sequer pra te achar
Um junkie cansado
O tempo me consome
Em ondas de desejo

Passos de ilusão
Eu danço só
Na madrugada
Preciso te abraçar
Oh, meu amor!
Eu sou teu passageiro
perdido
marginal

 

voltar

 

JOQUIM (Joey)
Bob Dylan / Jacques Levy
Transcriação Vitor Ramil
Baseado na vida de Joaquim Fonseca

Satolep
Noite
No meio de uma guerra civil
O luar na janela não deixava a baronesa dormir
A voz da voz de Caruso
Ecoava no teatro vazio
Aqui nessa hora é que ele nasceu
Segundo o que contaram pra mim

Joquim era o mais novo
Antes dele havia seis irmãos
Cresceu o filho bizarro
Com o bizarro dom da invenção
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Quando o cara aprontava mais uma

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

Muito cedo
Ele foi expulso de alguns colégios
E jurou: “Nessa lama eu não me afundo mais”
Reformou uma pequena oficina
Com a grana que ganhara vendendo velhas invenções
Levou pra lá seus livros, seus projetos
Sua cama e muitas roupas de lã
Sempre com frio, fazia de tudo
Pra matar esse inimigo invisível

A vida ia veloz nessa casa
No fim do fundo da América do Sul
O gênio e suas máquinas incríveis
Que nem mesmo Julio Verne sonhou
Os olhos do jovem profeta
Vendo coisas que só ontem fui ver
Uma eterna inquietude e virtuosa revolta
Conduziam o libertário

Dezembro de 1937
Uma noite antes de sair
Chamou a mulher e os filhos e disse:
“Se eu sumir procurem logo por mim”
E não sei bem onde foi
Só sei que teria gritado a uma pequena multidão
“Ao porco tirano e sua lei hedionda
Nosso cuspe e o nosso desprezo!”

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No meio da madrugada, sozinho
Ele foi preso por homens estranhos
Embarcaram num navio escuro
E de manhã foram pra capital
Uns dias mais tarde, cansado e com frio
Joquim queria saber onde estava
E num ar de cigarros
De uns lábios de cobra, ele ouviu:
“Estás onde vais morrer”

Jogado numa cela obscura
Entre o começo do inferno e o fim do céu
Foi assim que depois de muitas histórias
A mulher enfim o encontrou
E ele ainda ficou ali por mais dois anos
Sempre um homem livre apesar da escravidão
As grades, o frio, mas novos projetos
Entre eles um avião

O mundo ardia na guerra
Quando Joquim louco saiu da prisão
Os guardas queimaram os projetos e os livros
E ele apenas riu, e se foi
Em Satolep alternou o trabalho
Com longas horas sob o sol
Num quarto de vidro no terraço da casa
Lendo Artaud, Rimbaud, Breton

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No início dos anos 50
Ele sobrevoava o Laranjal
Num avião construído apenas das lembranças
Do que escrevera na prisão
E decidido a fazer outros, outros e outros
Joquim foi ao Rio de Janeiro
Aos órgãos certos, os competentes
Tirar uma licença

O sujeito lá responsável por essas coisas lhe disse:
“Está tudo certo, tudo muito bem
O avião é surpreendente, já vi
Mas a licença não depende só de mim”
E a coisa assim ficou por vários meses
O grande tolo lambendo o mofo das gravatas
Na luz esquecida das salas de espera
O louco e seu chapéu

Um dia alguém lhe mandou um bilhete decisivo
E claro, não assinou embaixo
“Desiste”, estava escrito, “muitos outros já tentaram
E deram com os burros n´água
É muito dinheiro, muita pressão
Nem Deus conseguiria”
E o louco cansado, o gênio humilhado
Voou de volta pra casa

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

No final de longa crise depressiva
Ele raspou completamente a cabeça
E voltou à velha forma com a força triplicada
Por tudo o que passou
Louco, Joquim louco
O louco do chapéu azul
Todos falavam e todos sabiam
Que o cara não se entregava

Deflagrou uma furiosa campanha
De denúncias e protestos
Contra os poderosos
Jogou livros e panfletos do avião
Foi implacável em discursos notáveis
Uma noite incendiaram sua casa
E lhe deram quatro tiros
Do meio da rua ele viu as balas
Chegando lentamente

Os assassinos fugiram num carro
Que como eles nunca se encontrou
Joquim cambaleou ferido alguns instantes
E acabou caído no meio-fio
Ao amigo que veio ajudá-lo, falou:
“Me dê apenas mais um tiro por favor
Olha pra mim, não há nada mais triste
Que um homem morrendo de frio”

Joquim, Joquim
Nau da loucura no mar das idéias
Joquim, Joquim
Quem eram esses canalhas
Que vieram acabar contigo?

 

voltar

 

QUIET MUSIC
Vitor Ramil

There is a picture
Cold and rain
Quiet music
In my brain

Fallen angles
Living lines
Plastic colours
Sleepless nights

There is a sculpture
Stream and glow
Quiet music
In my soul

Cold, deep inside it is cold
Where I shape the stream
Leave me there
Rain, where I shape the rain
Deep inside it glows
Let me stay there

There is a picture
Joy and pain
Quiet music
In my brain

Fallen angles
Living lines
Plastic colours
Sleepless nights

There is a sculpture
Steel and snow
Quiet music
In my soul

Joy, deep inside it is joy
Where I shape the steel
Leave me there
Pain, where I shape the pain
Deep inside it snows
Let me stay there

 

voltar

 

O PRIMEIRO DIA
Vitor Ramil

Que futuramente a gente aqui
Que setembro a tempo de você
Que segundo quase faz acontecer
O primeiro dia

Que possivelmente justo aqui
Que planeta errante de você
Que horizonte quase faz acontecer
O primeiro dia de você
De dizendo tudo que guardei
De vivendo tudo de uma vez
No primeiro dia de você

Que futuramente a gente aqui
Que aqui distante de você
Que agora quase faz acontecer
O primeiro dia de você
De dizendo tudo que guardei
De vivendo tudo de uma vez
No primeiro dia de você

 

voltar

 

LIVROS NO QUINTAL
Vitor Ramil

Viu a noite no portão
Cortou os fios de luz
Esvaziou a caixa d’água
Até amanhecer

Amassou o carro
Deu o vinho aos animais
Espalhou a louça
Em mil pedaços no jardim

Pôs os livros no quintal
Rezando pra chover

Arranhou os discos
Descolou a forração
Arrastou cadeiras
Pelo chão do corredor

Recortou nas roupas
Este rosto que ela tem
De olhos bem abertos
Sabedores do que vêem

Pôs os livros no quintal
Rezando pra chover

E choveu

 

voltar

 

O TANGO DA INDEPENDENCIA
Vitor Ramil

em breve

 

voltar

 

NOITE DE SÃO JOÃO
Vitor Ramil
Poema de Fernando Pessoa

Noite de São João
Para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá
Eu sem noite de São João
Porque há São João onde o festejam
Para mim há uma sombra de luz
De fogueiras na noite
Um ruído de gargalhadas
Os baques dos saltos
E o grito casual
De quem não sabe que eu existo

 

voltar

 

MILONGA DE SETE CIDADES (A Estética do Frio)
Vitor Ramil

Fiz a milonga em sete cidades
Rigor, Profundidade, Clareza
Em Concisão, Pureza, Leveza
E Melancolia

Milonga é feita solta no tempo
Jamais milonga solta no espaço
Sete cidades frias são sua morada

Em Clareza
O pampa infinito e exato me fez andar
Em Rigor eu me entreguei
Aos caminhos mais sutis
Em Profundidade
A minha alma eu encontrei
E me vi em mim

Fiz a milonga em sete cidades
Rigor, Profundidade, Clareza
Em Concisão, Pureza, Leveza
E Melancolia

A voz de um milongueiro não morre
Não vai embora em nuvem que passa
Sete cidades frias são sua morada

Concisão tem pátios pequenos
Onde o universo eu vi
Em Pureza fui sonhar
Em Leveza o céu se abriu
Em Melancolia
A minha alma me sorriu
E eu me vi feliz

 

voltar

 

SATOLEP
Vitor Ramil
O segundo verso foi escrito em parceria com Joca D'Ávila

Sinto hoje em Satolep
O que há muito não sentia
O limiar da verdade
Roçando na face nua
As coisas não têm segredo
No corredor dessa nossa casa
Onde eu fico só com minha voz
A Dalva e o Kleber na sala
Tomando o mate das sete
A vó vem vindo da copa
Trazendo queijo em pedaços
Eu liberto nas palavras
Transmuto a minha vida em versos
Da maneira que eu bem quiser.
Depois de tanto tempo de estudo
Venho pra cá em busca de mim.

E o céu se rirá d´amore
No olho azul de Zenaide
Outrora...lembras flam(ingos)
Jê ne se pá, singulare
Yê na Barra Uruguaia
E letchussas no Arroito
Marfisas gemerão de paz no The Lion!
La Jana torpor vadio
Cigarra sem horizonte
Lia, Alice e a Lua
Num charque sem preconceito
O CISNE NEGRO APRISIONA
O bélICO AmoR perdidO
E a Esma, num bisaje que só
Cativa alguém
Nessa implosão de signos e princípios
Eu guardo o Joca e ele a mim.

O teu nome, Ana, escrito
No braço da minha alma
Persiste como uma estrela
Nas horas intermináveis
Chuva, vapor, velocidade
É como o quadro do Turner
Sobre a parede gris da solidão.
So-to-me-lo te verás-me
Como-lho-me ver-te-ás-nos
Solo te quiero dizer-te
Que me sinto mui contento
Porque vou na tua casa
E lemos coisas bonitas juntos
No silêncio eu pego a tua mão.
Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto
Teu ser se confunde no meu.

Vitorino de La Mancha
Minha luta se resume
No compasso de um tango
Na minha triste figura
Meu piano rocinante
A yoga e o chá no fim da tarde
E depois a noite o meu temor.
Eu converso com o Kleiton
Na mesa da casa nova
Sobre a vida após a morte
Sobre a morte após a vida
Vencedor é o que se vence
E a falta do Kleber é dura
O que a gente quer é ser feliz
A paz do indivíduo é a paz do mundo
E viva o Rio Grande do Sul!

Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria
Faço um filme da cidade
Sob a lente do meu olho verde
Nada escapa da minha visão.
Muito antes das charqueadas
Da invasão de Zeca Netto
Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina
Quem viver verá que estou ali

voltar