discos

 

satolep sambatown
longes
2004

1. O primeiro dia
2. Neve de papel
3. Noturno
4. Longe de você
5. Perdão
6. Noa Noa
7. Visita
8. De banda
9. Querência
10. Livros no quintal
11. Desenchufado
12. Sem dizer
13. A word is dead
14. Adiós, goodbye

 

 

O PRIMEIRO DIA
Vitor Ramil

Que futuramente a gente aqui
Que setembro a tempo de você
Que segundo quase faz acontecer
O primeiro dia

Que possivelmente justo aqui
Que planeta errante de você
Que horizonte quase faz acontecer
O primeiro dia de você
De dizendo tudo que guardei
De vivendo tudo de uma vez
No primeiro dia de você

Que futuramente a gente aqui
Que aqui distante de você
Que agora quase faz acontecer
O primeiro dia de você
De dizendo tudo que guardei
De vivendo tudo de uma vez
No primeiro dia de você

 

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NEVE DE PAPEL
Vitor Ramil

Quem se vai ali
Olha, sou eu
Sob a neve de papel
Que cai de um céu
De janelas do ano que foi
Será que vem
Alguma carta pra mim?

Mas de quem virá?
O que irá dizer?
“Que surpresa encontrar
Você aqui”
São janelas feitas de ar
Todas iguais
Qual delas se abre por mim?

Que me vou por ali
Que fiquei por aqui

Quem ficou ali
Olha, sou eu
Sobre a neve de papel
No chão, ao léu
Folhas brancas, contas, jornais
Onde estará
Aquela carta pra mim?

Que me vou por aqui
Que fiquei por ali

 

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NOTURNO
Vitor Ramil

Eu lembro cada momento
De cada noite sumida
Tudo de uma vez
Numa esquina

A tua pele de lua
O meu olhar de neblina
Tudo de uma vez
Numa esquina
De nós dois

Eu sinto cada desejo
De cada rua partida
Tudo de uma vez
Cada esquina
De nós dois

 

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LONGE DE VOCÊ
Vitor Ramil

Tô vivendo em outra dimensão
Longe de você
Habitando o fundo de um vulcão
Que eu domestiquei

Todo o dia deixo o sol entrar
Mas a luz não vem
A janela em mim é tão brutal
Causa esse desdém

Meu relógio em outra dimensão
Corre de você
Solto o pensamento num tufão
Finjo que pensei

Todo dia o dia quer passar
Mas o fim não vem
A espera é sempre tão brutal
Tudo se mantém

Acredito em outra dimensão
Longe de você
Lava, fogo, cinza, solidão
Já me acostumei

Todo o dia posso te encontrar
Mas você não vem
O deserto em volta é tão brutal
Sempre te detém

 

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PERDÃO
Vitor Ramil
(Melodia e letra para o prelúdio BWV 999 de J. S. Bach)

Perdôo o sol
Que aquece meu corpo
Perdôo o ar
Que me alimenta
Perdôo a dor
Que desistiu de mim
E a solidão
Que não foi tanta como eu quis
A quem me quer
A quem me vem
A quem me ama
Quero perdoar
Ao violão, à voz
A tudo que soa e salva
Meu perdão
Perdôo o quanto me fui
Do que me fiquei
Por me levar
Por não saber
O mal que me fiz

 

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NOA NOA
Vitor Ramil
(Para Cleber Teixeira)

Paul Gauguin,
vendo o sol
habitar
o que vê,
diz adeus
ao ocaso ocidental.

Verde mar
de coral
a seus pés,
e um céu
violetamente céu.

Amanhã,
talvez depois
de amanhã,
quando for
o que for
acontecer;
talvez
a cada manhã,
o suor
do trabalho
e do prazer.

O amor
logo vem
ser o sol
que ele vê;
a mulher
veste o ouro da nudez.

Paul Gauguin
é feliz,
afinal.
Também nós
o seremos uma vez.

 

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VISITA
Vitor Ramil

Sem aviso
Sem licença
Apressada
Vindo à profundeza
Constante
Crescente
Intensa
Mansamente
Quem bate
No meu coração?

 

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DE BANDA
Vitor Ramil

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra gente dar uma banda lá fora
Falando coisas de amor

Nenhuma imagem sofrida
Nos despedimos da dor
Pra dar a banda da forma mais leve
Falando coisas de amor

Ela que era triste riu
Antes tão fechada ao poucos se abriu
Sou um velho fraco, eu sei
Mas me fiz de moço
E doido dancei, dancei

Fui faroleiro engraçado
Fui homem sério também
Ela contava as estrelas sem pressa
Com olhos de vaivém

A nossa marcha era alegre
A lua cheia chegou
Pra ver a gente de banda na rua
Falando coisas de amor

Ela que era triste riu
Antes tão fechada ao poucos se abriu
Sou um velho fraco, eu sei
Mas me fiz de moço
E doido dancei, dancei

Depois jamais desencanto
O que era doce durou
Trocamos nossos antigos lugares
Por um que nos encantou

Vivemos no mesmo canto
Em nenhum canto uma dor
É como a gente de banda lá fora
Falando coisas de amor

 

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QUERÊNCIA
Vitor Ramil
Poema de João da Cunha Vargas

Deixei a velha querência
Saí de lá mui novinho
Com tabuleta ao focinho
E a marca já descascada
Ponta da cola aparada
Sinal de laço ao machinho

Por estes campos afora
Deste Rio Grande infinito
De pago em pago ao tranquito
Repontando o meu destino
Do campo grosso pro fino
Fui me criando solito

Angico, Mariano Pinto
Picada onde me criei
Por tudo ali eu andei
Bebendo e jogando a tava
Bem montado sempre andava
Corri carreira e dancei

Cruzei picadas escuras
Prum baile ou jogo de prenda
Derrubei porta de venda
Pra tomá um trago de canha
E esporeei boi na picanha
Em tudo que foi fazenda

O que viesse eu topava
Serviço, festa ou peleia
Cortei muita cara feia
De indiozito retovado
E amancei muito aporreado
Com pé-de-amigo e maneia

Um dia me deu saudades
E eu fui rever o meu pago
Sentir da china o afago
E o vento frio do pampeiro
No coração caborteiro
Do meu peito de índio vago

O tempo passou, lá se foi
E eu não queria que fosse
Tudo pra mim terminou-se
Nem eu sou mais o que era
A estância virou tapera
E o que era xucro amansou-se

E hoje só o que me resta
É o pingo, o laço e o pala
Pistola, só com uma bala
E a estrada pra bater casco
No cano da bota um frasco
E um fiambrezito na mala!

 

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LIVROS NO QUINTAL
Vitor Ramil

Viu a noite no portão
Cortou os fios de luz
Esvaziou a caixa d’água
Até amanhecer

Amassou o carro
Deu o vinho aos animais
Espalhou a louça
Em mil pedaços no jardim

Pôs os livros no quintal
Rezando pra chover

Arranhou os discos
Descolou a forração
Arrastou cadeiras
Pelo chão do corredor

Recortou nas roupas
Este rosto que ela tem
De olhos bem abertos
Sabedores do que vêem

Pôs os livros no quintal
Rezando pra chover

E choveu

 

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DESENCHUFADO
Vitor Ramil

Eu não vejo nada
Tô atrás da porta
Tô no chão do carro
Tô num fundo falso

Eu não sinto nada
Tô desenchufado
Tô perdendo o tato
Tô alienado

Eu não acredito
Tô desencantado
Tô sem compromisso
Tô criando caso

Eu não faço nada
Tô sem movimento
Tô virando estátua
Tô embrutecendo

Eu não quero nada
Tô sem interesse
Tô desapontado
Tô sem endereço

Eu não acredito
Tô desencantado
Tô sem compromisso
Tô criando caso

Eu não digo nada
Tô silencioso
Tô comendo grito
Tô alimentado

Eu não penso nada
Tô no meu direito
Tô virando bicho
Tô desaprendendo

Eu não acredito
Tô desencantado
Tô sem compromisso
Tô criando caso

Eu não acredito

 

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SEM DIZER
Vitor Ramil

Não digo o que me vem
Que nada vem a mim
O que dizer
Lá se vai em ti

Não digo a tua voz
Não digo o que me diz
Quando se vai
Sem dizer adeus

Fico só sem dizer
Fico só

Não digo o que não vem
Do que se vai em ti
O que disser
Não dirá de mim

Fico só sem dizer
Fico só

 

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A WORD IS DEAD
Vitor Ramil
Poema de Emily Dickinson

A word is dead
When it is said
Some say
I say
It just begins
To live
That day

 

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ADIÓS, GOODBYE
Vitor Ramil

Coisas que ficaram por dizer
Coisas que não tive tempo de ouvir
Goodbye, adiós

Deixo o sol dormindo no porão
Bato a porta sem ferir o dia
Adiós, goodbye

Coisas que não canso de esquecer
Coisas que se escondem na lembrança
Goodbye, adiós

Deixo ao vento que quiser levar
Minhas folhas secas de utopia
Adiós, goodbye

Coisas que procuram seu lugar
Coisas que me ocupam cada instante
Goodbye, adiós

Deixo em gelo fino meus sinais
Que ninguém me eleja como guia
Adiós, goodbye

Coisas que acertaram no que sou
Coisas que falharam no que não fui
Goodbye, adiós

Deixo o sol dormindo no porão
Bato a porta sem ferir o dia
Adiós, goodbye

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