discos

 

tambong
a paixão de V segundo ele próprio
1984/1998

1. Satolep
2. O baile dos galentes
3. Ibicuí da Armada
4. O milho e a inteligência
5. Talismã
6. A luta
7. Armando Albuquerque no laboratório
8. Milonga de Manuel Flores
9. Nossa Senhora Aparecida e o milagre
10. Noigandres
11. Clarisser
12. De um deus que ri e de outros
13. Semeadura
14. Poemita
15. Sangue Ruim
16. Século XX
17. Auto-retrato
18. Sim e Fim
19. Fragmento de milonga
20. A paixão de V segundo ele próprio
21. As moças
22. As cores viajam na porta do trêm

 

 

SATOLEP
Vitor Ramil
O segundo verso foi escrito em parceria com Joca D'Ávila


Sinto hoje em Satolep
O que há muito não sentia
O limiar da verdade
Roçando na face nua
As coisas não têm segredo
No corredor dessa nossa casa
Onde eu fico só com minha voz
A Dalva e o Kleber na sala
Tomando o mate das sete
A vó vem vindo da copa
Trazendo queijo em pedaços
Eu liberto nas palavras
Transmuto a minha vida em versos
Da maneira que eu bem quiser.
Depois de tanto tempo de estudo
Venho pra cá em busca de mim.

E o céu se rirá d´amore
No olho azul de Zenaide
Outrora...lembras flam(ingos)
Jê ne se pá, singulare
Yê na Barra Uruguaia
E letchussas no Arroito
Marfisas gemerão de paz no The Lion!
La Jana torpor vadio
Cigarra sem horizonte
Lia, Alice e a Lua
Num charque sem preconceito
O CISNE NEGRO APRISIONA
O bélICO AmoR perdidO
E a Esma, num bisaje que só
Cativa alguém
Nessa implosão de signos e princípios
Eu guardo o Joca e ele a mim.

O teu nome, Ana, escrito
No braço da minha alma
Persiste como uma estrela
Nas horas intermináveis
Chuva, vapor, velocidade
É como o quadro do Turner
Sobre a parede gris da solidão.
So-to-me-lo te verás-me
Como-lho-me ver-te-ás-nos
Solo te quiero dizer-te
Que me sinto mui contento
Porque vou na tua casa
E lemos coisas bonitas juntos
No silêncio eu pego a tua mão.
Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto
Teu ser se confunde no meu.

Vitorino de La Mancha
Minha luta se resume
No compasso de um tango
Na minha triste figura
Meu piano rocinante
A yoga e o chá no fim da tarde
E depois a noite o meu temor.
Eu converso com o Kleiton
Na mesa da casa nova
Sobre a vida após a morte
Sobre a morte após a vida
Vencedor é o que se vence
E a falta do Kleber é dura
O que a gente quer é ser feliz
A paz do indivíduo é a paz do mundo
E viva o Rio Grande do Sul!

Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria
Faço um filme da cidade
Sob a lente do meu olho verde
Nada escapa da minha visão.
Muito antes das charqueadas
Da invasão de Zeca Netto
Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina
Quem viver verá que estou ali

 

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O BAILE DOS GALENTES
Vitor Ramil

(sem letra)

 

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IBICUÍ DA ARMADA
Vitor Ramil

Entre o meu e o teu ser
Tudo é permitido
Lambaris de cristal
E um bugio largado e rouco
De uma cordeona fantasma
Teu eco me responde
No timbre dos caudilhos!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

Um silêncio muito antigo
Cai sobre os insetos
Chegam homens maragatos
Num pequeno bote
Que encosta sem pressa
Na outra margem
O ronco da queda d’água
Me chama de louco!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

São três homens
Três facões
Com três lenços rubros
São três sombras
Três chapéus
Que entram pela mata
Três luas brilhando no aço
São três degoladores
Por sorte não me viram!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

As cigarras recomeçam
Com seu canto triste
Eu mergulho como um bicho
E nadando em águas profundas
Revelo poemas aos peixes
São versos do soldado
Do poeta russo!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

Limo e verbo
Lodo e rima
Louca a bala
Laica
Correnteza
Movimentos
Lanço a poesia molhada
Ao toque dos seres gelados
E quando volto à tona
Os homens me descobrem!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito

São três palas
Três anéis
Com três vozes duras
São três golpes
Três metais
E as três luas me partem ao meio Brilhando no espelho
Das lâminas
Meu corpo vai-se embora
Na trilha das traíras
E minha cabeça livre
No gelo dos cometas!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito!

 

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O MILHO E A INTELIGÊNCIA
Vitor Ramil/Francine Ramil

Quem tem milho
Não tem inteligência
Quem tem inteligência
Não tem milho
Quem não tem milho
E não tem inteligência
Não tem nada

Pensamentos de armário e idéias de alpaca
Não servem pra nada, nada!
A lei é só uma, a da reação!
Um corredor interminável com crianças
Pegando fogo ocasionalmente
A inquietude gera o auto-conhecimento
E o auto-conhecimento é isso tudo aqui.
Tambores ao mar!
Implodam os signos!
Anáguas, kalimbas, neófitos!
E seremos e seremos e seremos.

 

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TALISMÃ
Vitor Ramil

Vidro
O cristal
Um vit(rô) azul
A louça chinesa
Que nunca quebrou
Talismã
De bons metais
Se a noite é ruim
Na mesma hora vens
Poema e risadas
Durmo em teu ombro
Pérola negra
O marinheiro negro
O olho atento em Deus
E no surrealismo
Abraço negro
Literatura negra
A lua de Nosferatu
Jóia
Vidro

 

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A LUTA
Música de Vitor Ramil
para trecho de “Os Sertões”,
de Euclides da Cunha


Embaixo,
coleando nas voltas do vale estreito
já está toda a vanguarda,
armas fulgurantes, feridas pelo sol,
feito uma torrente escura
transudando raios.

 

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ARMANDO ALBUQUERQUE NO LABORATÓRIO
Vitor Ramil

ARMANDO e eu no laboratório

 

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MILONGA DE MANUEL FLORES
Vitor Ramil
Poema de Jorge Luís Borges
Tradução de Alfredo Jacques


Manuel Flores vai morrer
Isso é moeda corrente
Morrer é um costume
Que sabe ter toda a gente

Amanhã virá a bala
E com a bala o olvido
Disse o sábio Merlin
Morrer é haver nascido

Apesar disso me dói
Despedir-me da vida
Essa coisa tão de sempre
Tão doce e tão conhecida

Olho na alba minhas mãos
Olho nas mãos as veias
Com estranheza as contemplo
Como se fossem alheias

Quanta coisa em seu caminho
Esses olhos terão visto
Quem sabe o que verão
Depois que me julgue Cristo

Manuel Flores vai morrer
Isso é moeda corrente
Morrer é um costume
Que sabe ter toda a gente

 

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NOSSA SENHORA APARECIDA E O MILAGRE
Vitor Ramil e Giba Giba

Nossa Senhora Aparecida
Faz milagre pra você
Se o vivente tem um calo
Ele para de doer

 

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NOIGANDRES
Vitor Ramil
Poema de Arnaut Daniel
Tradução de Augusto de Campos


Vejo vermelhos, verdes, blas, brancos, cobaltos
Vergéis, plans, plais, tertres e vaus;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhã, tarde, noite.
So´m met em cor qu´ieu colore mon chan
D´um aital flor don lo fruitz sia amors,
E jois lo grans, e l´olors de noigandres.

“Eu sou Arnaut que am(ass)o (l)a(u)r(a),
Caço lebre com boi e nado
Contra a maré em luta eterna”.

 

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CLARISSER
Vitor Ramil

Clarisser
É um poder vulgar
Corpo luz da emoção
O instrumento que transporta
O ser nas idéias
Ao ser nas palavras
E então
Faz a gente proesiar
Faz a gente pertencer
Aos sujeitos, advérbios
Ao mistério
De expressar o que se quer

Clarisser
É sempre cultivar
O saber na solidão
Pra poder manter acesa
A vida serena
Dentro de um silêncio transparente
Que ajude a compreender
O que acontece além
Das esquinas, das verdades
E das guerras
Além dos gestos dos gestos

Clarisser
É oãn es raserper
A sarger arap rairc
Rariver sadot sa sesarf
Sodot so samenof
Rirbocsed as seroc sod samora
Que desprendem das canções
E se soltam pelo ar
Em matizes, ocra-siri
Tons profundos
Que vão pousar na terra

Clarisser
É só um verbo assim
Meio meu
Meio não meu
Que anima os sentidos
E corre nos trilhos
Que cruzam o pampa da razão
Nada o conjuga não
É o infinitivo em si
Sem futuro, nem passado
Mas presente
Aonde está presente.

 

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DE UM DEUS QUE RI E DE OUTROS
Vitor Ramil

Moram vários deuses na minha calçada
Um inventa a lua e outro ri
Há um deus tão tolo
Que nem sente as noites de verão

 

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SEMEADURA
Vitor Ramil / Fogaça

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andas
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Prum dia acabar com essa escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

 

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POEMITA
Vitor Ramil / Joca D'Ávila

Deporte:
La hora de las mujeres
Cuando la naturaleza enloqueció
Yo hubiera podido besarla
La cara deslumbrante del Kremlin
Luz roja en el mercado comum europeo!
Cazador de dinosaurios
Hableles, los niños entienden
La muerte no es invencible
Excursión hacia la noche
Médico y toxicómano
Le gusta a usted tocar y ser tocado?
Una fábrica de bebés de probeta
El eterno mito de Maria Callas
Refrescantes maravillas
Pintura de un pueblo valiente
Aprenda a controlar sus suemos
Victoria del espíritu
O desperdiciada juventud!!!

 

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SANGUE RUIM
Vitor Ramil
Poema de Rimbaud
Tradução de Ledo Ivo


O sangue pagão retorna!
O espírito está perto
porque Cristo não me ajuda
dando nobreza e liberdade
à minha alma?
Ah, o evangelho passou!
o evangelho!
o evangelho!

 

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SÉCULO XX
Vitor Ramil

Vida espiral
Nave febril
O carro que vai veloz
Sob o céu da campanha
Século XX
Uma temporada no inferno
Pela mão feminina do jovem poeta
Siglo XX
Acende os teus faróis
Tempo bom
Templo no escuro
Augusto traduz Arnaut
E a fome ainda mata milhões
Tanto, tanto, tanto
E nem vês!
Golpe e chacarera
Super-Homem
E o herói Macunaíma
Tango e Monarquia
O mar azul de Varadero
E de Miami
Que não vês!

Sonho no fim
Túnel no fim
O trilho do trem da morte
Acaba nas nuvens
Século XX
Tua cara no espelho
Revela Repensa Refaz
Lava os olhos
E tira esse batom
Tempo bom
Templo que cai
Um índio nu na floresta
E gente em pequenas prisões
Simples, simples, simples
E nem vês!

Punks e Atahualpa
O imperialismo
E a Nicarágua de Sandino
Sempre nessa dança sem sentido
A vanguarda e o retrocesso
A dança que não vês!

 

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AUTO-RETRATO
Vitor Ramil

lên meu
Essesi dor
cio é
trans

rente ca
pa re a
das
ao s a


ções
can

 

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SIM E FIM
Vitor Ramil

Cantar
E não ser feliz
É coisa que eu nunca vi
A arte é como a luz
Que o amor faz acender
Nos olhos de quem nos quer bem
Se é assim
Sempre assim
Como vai o artista então negar
A força que o faz viver?
Pra lá de poder criar
É falso, é pura ilusão
Sim e sim!
Sim e fim!
Canto o que quiser
Discurso, drama, ação!
Romance, humor, teatro
Só eu sei o que há em mim
Conheço o que me faz bem

Cantar
E não ser feliz
É coisa que eu nunca fiz
A arte tem o dom
De sempre equilibrar
A emoção de quem a tem
Por favor
Ouve bem
Como vai o artista então mentir
Cantando o que jamais foi seu
Se engana a felicidade
E deixa de ser quem é?
Sim e sim!
Sim e fim!
Canto o que quiser
Lilás, marinho, vinho
Cinza, rosa-choque
Sei tudo o que existe em mim
Sei bem o que me convém

Cantar
E não ser feliz
É coisa que eu nunca quis
A arte me ensinou
A ter a minha voz
No meio de outras vozes
Vermelho em verde claro
Cantar pra sempre ser feliz

 

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FRAGMENTO DE MILONGA
Vitor Ramil / Cleber Teixeira

Dei o teu nome
às minhas vitórias
(assim ficas imortal,
como eu, meu poema
e meu cavalo).

 

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A PAIXÃO DE V SEGUNDO ELE PRÓPRIO
Vitor Ramil

A palavra presa
No silêncio da forma
Isolada em branco
Um branco indescritível
Sim!
E grandes espaços
Onde a voz desliza
Sobre as tijoletas
Como uma milonga
Uma milonga triste
Sim! Sim! Sim!
A alma nas cousas
As catedrais
A vastidão dos cargueiros
Revoluções
E as orações dos druídas
Um temporal
Da cor do bronze mais bronze
Oh, sim!
Oh sim!

No fim da viagem
Alguma vanera
No fole da gaita
Do gaiteiro cego
Sim!
Depois as fachadas
Dos velhos sobrados
No cristal do dia
O dia de Satolep
Sim! Sim! Sim!
A alma nas cousas
O cheiro bom
Das bibliotecas antigas
E o luar
Sobre um chapéu elegante
A proteção
De um anjo de outro e prata
Oh, sim!
Oh, sim!

E a tarde segue
No seu trem de chumbo
Ao sabor de um tango
Um tango muito antigo
Sim!
Eu, poetizado
Me descubro em tudo
Da cor de Kandinsky
Aos punhais de Borges
Sim!

 

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AS MOÇAS
Adaptação de Vitor Ramil para quarta popular

Na cidade de Pelotas
As moças vivem fechadas
De dia fazem biscoitos
De noite bailam caladas

 

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AS CORES VIAJAM NA PORTA DO TREM
Vitor Ramil

(sem letra)

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