discos

 

ramilonga
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1997

1. Ramilonga
2. Indo ao pampa
3. Noite de São João
4. Causo farrapo
5. Milonga de sete cidades
6. Gaudério
7. Milonga
8. Deixando o pago
9. No manantial
10. Memórias dos bardos das ramadas
11. Último pedido

 

 

RAMILONGA
Vitor Ramil

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Ramilonga, Ramilonga

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

 

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INDO AO PAMPA
Vitor Ramil

Vou num carro são
Sigo essa frente fria
Pampa a dentro e através
Desde o que é Libres sigo livre
E me espalho sob o céu
Que estende tanta luz
No campo verde a meus pés

O que vejo lá?
Mata nativa instiga o olho
Que só visa me levar
Sobe fumaça branca
E a pupila se abre pra avisar
Se há fumaça, há farrapos por lá

Eu acho que é bem

Eu indo ao pampa
O pampa indo em mim

Quase ano 2.000
Mas de repente avanço
A mil e oitocentos e trinta e oito
Eu digo avanço porque é claro
Que os homens por ali
Estão pra lá dos homens do ano 2.000

Oigalê, que tal!
Sou o futuro imperfeito
De um passado sem lugar
Com a missão de olhar pra tudo
E em tudo viajar
Pra não ser só um cego
Num espaço sem ar

Eu acho que é bem

Eu indo ao pampa
O pampa indo em mim

Diz um capitão:
“Seja bem vindo, hombre
Nosso tempo é todo teu
Tempo de morte, dor e fome
Mas tempo de pelear
Onde as idéias
Não são cegas sem ar

Só vou te pedir
A montaria, exausta
Não consegue mais andar
Que a partir de agora
Seja nosso o carro em que estás
Pois só um carro são
Nos pode levar”

E lá vamos nós
Seguindo a frente fria
Pampa a dentro e através
Séculos XIX e XXI fundidos sob o céu
Que estende tanta luz
No campo rubro a meus pés

Eu acho que é bem

Eu indo ao pampa
O pampa indo em mim

 

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NOITE DE SÃO JOÃO
Vitor Ramil
Poema de Fernando Pessoa


Noite de São João
Para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá
Eu sem noite de São João
Porque há São João onde o festejam
Para mim há uma sombra de luz
De fogueiras na noite
Um ruído de gargalhadas
Os baques dos saltos
E o grito casual
De quem não sabe que eu existo

 

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CAUSO FARRAPO
Vitor Ramil

Oigalê-tchê, eh-cuê!
Se aprochegue pra escutar
Oigalê-tchê, eh-cuê!
Mais um causo eu vou contar

Numa peleia das braba
Topei co’ a Morte de cara
A matungona parada
De olho na minha alma

Eu le pedi: Sai da frente
Ou te levanto na espada
Eu sei que a morte eu não mato
Mas deixo toda lanhada

Oigalê-tchê, eh-cuê!
Se aprochegue pra escutar
Oigalê-tchê, eh-cuê!
Mais um causo eu vou contar

Fui, como sempre, educado
Jamais falando de valde
Mas Morte tem uma cara
De quem não faz amizade

Assim pensando, fui breve
Que a luta ali me chamava
No meio de tanta morte
A Morte eu passei na espada

Oigalê-tchê, eh-cuê!
Se aprochegue pra escutar
Oigalê-tchê, eh-cuê!
Mais um causo eu vou contar

De relancina, a morte
Era uma china estropiada
Saí surrando os galego
Ai, que prazer que me dava!

Caramurus vejo sempre
Na ponta da minha espada
A Morte só volto a ver
Se a guerra tiver terminada

Oigalê-tchê, eh-cuê!
Se aprochegue pra escutar
Oigalê-tchê, eh-cuê!
Mais um causo eu vou contar

 

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MILONGA DE SETE CIDADES (A Estética do Frio)
Vitor Ramil

Fiz a milonga em sete cidades
Rigor, Profundidade, Clareza
Em Concisão, Pureza, Leveza
E Melancolia

Milonga é feita solta no tempo
Jamais milonga solta no espaço
Sete cidades frias são sua morada

Em Clareza
O pampa infinito e exato me fez andar
Em Rigor eu me entreguei
Aos caminhos mais sutis
Em Profundidade
A minha alma eu encontrei
E me vi em mim

Fiz a milonga em sete cidades
Rigor, Profundidade, Clareza
Em Concisão, Pureza, Leveza
E Melancolia

A voz de um milongueiro não morre
Não vai embora em nuvem que passa
Sete cidades frias são sua morada

Concisão tem pátios pequenos
Onde o universo eu vi
Em Pureza fui sonhar
Em Leveza o céu se abriu
Em Melancolia
A minha alma me sorriu
E eu me vi feliz

 

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GAUDÉRIO
Vitor Ramil
Poema de João da Cunha Vargas


Poncho e laço na garupa
Do pingo quebrei o cacho
Dum zaino negro gordacho
Assim me soltei no pampa
Recém apontando a guampa
Pelito grosso de guacho

Fui pelechando na estrada
Do velho torrão pampeano
Já serrava sobreano
Cruzava de um pago a outro
Quebrando queixo de potro
Sem nunca ter desengano

Fui conhecendo as estâncias
O dono, a marca, o sinal
Churrasco que já tem sal
Guaiaca que tem dinheiro
Cavalo que é caborteiro
E o jujo que me faz mal

Conheço todo o Rio Grande
Qualquer estrada ou atalho
Quando me seco trabalho
Na velha lida campeira
Corro bem uma carreira
Manejo bem o baralho

Na tava sempre fui taura
Nunca achei parada feia
Quando o parceiro cambeia
Distância de nove passo
Quando espicho bem o braço
Num tiro de volta e meia

Num bolicho de campanha
De volta de uma tropeada
Botei ali uma olada
A maior da minha vida:
Dezoito sorte corrida
Quarenta e cinco clavada

E quanto baile acabei
Solito, sem companheiro
Dava um tapa no candeeiro
Um talho no mais afoito
Calçado no trinta e oito
Botava pra fora o gaiteiro

Trancava o pé no portal
Abria a porta da sala
Entre bufido de bala
E a providência divina
Só manotaços de china
Rasgando a franja do pala

Ninguém me toca por diante
Nem tampouco cabresteio
Eu me empaco e me boleio
Não paro nem com sinuelo
E tourito de outro pelo
Não berra no meu rodeio

Não quero morrer de doença
Nem com a vela na mão
Eu quero guasquear no chão
Com um balaço bem na testa
E que seja em dia de festa
De carreira ou marcação

E peço, quando eu morrer
Não me por em cemitério
Existe muito mistério
Prefiro um lugar deserto
E que o zaino paste perto
Cuidando os restos gaudério

E vou levar quando eu for
No caixão algum troféu:
Chilena, adaga, chapéu
Meu tirador e o laço
O pala eu quero no braço
Pra gauderiar lá no céu!

 

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MILONGA
Vitor Ramil
poema do folclore Uruguaio


Digo que siento desvelo
Digo que siento aflicción
Digo de corazón
Digo que llorar no puedo
Digo que en mi triste suelo
Digo que padezco, si
Digo que puesto a sufrir
Digo que dentro de un lecho
Digo que dentro ‘e mi pecho
SIENTO Y NO SIENTO SENTIR

Salvo estoy de mi entender
Salvo de hacer exigencias
Salvo de correspondencia
Salvo me tiene un deber
Salvo de todo placer
Salvo estoy porque comprendo
Salvo de una dicha vengo
Salvo de un buen porvenir
Salvo vivo de morir
DE UN SENTIMIENTO QUE TENGO

Quisiera que el más cantor
Quisiera un consejo darme
Quisiera nunca acordarme
Quisiera tener valor
Quisiera en este dolor
Quisiera hacer dividir
Quisiera para vivir
Quisiera el alma serena
Quisiera apartar las penas
QUE HE SENTIDO SIN SENTIR

Tengo en el sentido valor
Tengo cambiado el pesar
Tengo que recuperar
Tengo la esperanza en Dios
Tengo en este gran dolor
Tengo el alma batiendo
Tengo que vivir sufriendo
Tengo una pequeña duda
Tengo en mi mente segura
QUE ESTOY SIN SENTIR SINTIENDO

 

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DEIXANDO O PAGO
Vitor Ramil
Poema de João da Cunha Vargas


Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão

E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china

Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d’alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada

Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada

Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido

 

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NO MANANTIAL
Vitor Ramil

No manantial
Eu vi nascer
Uma rosa
Baguala

 

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MEMÓRIA DOS BARDOS DAS RAMADAS
Vitor Ramil
poema de Juca Ruivo


Memória dos bardos das ramadas
dos ilhéus, das violas lusitanas;
memória das guitarras castelhanas
em milongas, pericons e habaneras.
Lembrança das cordeonas afanadas,
animando fandangos e guerrilhas;
saudade das Tiranas e Quadrilhas
nos sorongos, em noites estreladas.

Tristeza das toadas missioneiras,
refletindo a angústia guarani!
Nostalgia do terço Lau Sus Cri,
rezado ao pôr-do-sol, nas Reduções.
Fascínio das histórias fronteiriças,
de caudilhos, duelos, entreveros!
Sensações de canchas, parelheiros,
no aconchego noturno dos fogões!

Memória do Negro Pastoreio,
da Boi-Guaçu, das lendas extraviadas,
das salamancas, das furnas encantadas,
dos cerros bravos, lagoas e peraus...
Nobreza dos amores confessados
no floreio de endechas cavalheiras
ao donaire das prendas e sesmeiras,
das vetustas estâncias, nos saraus.

Memória da payadas quixotescas
de andarengos, malevas, chimarritas,
dos menestréis de trovas não escritas,
dos cancioneiros de romance e adaga!
Memória dum passado novelesco,
desse filão de motes e poesia
donde gerou-se o estro e a galhardia
do fidalgo verso gauchesco!

 

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ÚLTIMO PEDIDO
Vitor Ramil
Poema de João da Cunha Vargas


Se um dia a morte maleva
Me dá um pealo de cucharra
Numa saída de farra
Me faça torcer o alcatre
Me ajeitem bem sobre um catre
Me tirem os laço das garra

A morte é sorra mui mansa
Comedera de sovéu
Que vem, desarma o mundeo
A mandado do Senhor
Nos larga num corredor
E dá uma espantada pro céu

Me enterrem num campo aberto
Que eu sinta o vento pampeiro
Em vez de vela, um candeeiro
Ao pé da cruz falquejada
Que eu possa enxergar a estrada
Por onde passa o tropeiro

Depois me deixem solito
Sobre o fraldão da coxilha
Junto ao pé da coronilha
Entre a mangueira e a tapera
Na “estância da primavera”
Coberto pela flexilha

Que eu ouça o berro do gado
De uma tropa em pastoreio
Ouça o barulho do freio
E o gaguejar das cordeonas
E retouços de redomonas
No chapadão do rodeio

Que eu sinta o cheiro da terra
Molhada da chuva em manga
Sinta o cheiro da pitanga
No barracão do pesqueiro
E o canto do joão-barreiro
Trazendo barro da sanga

Vou me juntar lá no céu
Onde só Deus bate asa
Não quero dar oh! de casa
Que a porta grande se tranque
Que me espere no palanque
Churrasco gordo na brasa

Vou viver na Estância Grande
Deste Patrão Soberano
Levar comigo o minuano
Pro rancho de algum posteiro
E pedir pra ficar lindeiro
Com o imortal Aureliano

Mas se lá não tiver carreira
Nem marcação campo a fora
Nem índio arrastando espora
Num jogo-de-osso em domingo
Eu quebro o cacho do pingo
E juro que venho embora

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