discos

 

tambong
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2000

1. Não é céu
2. Espaço
3. Grama verde
4. Um dia você vai servir a alguém
5. Foi no mês que vem
6. O velho Leon e Natália em Coyoacán
7. A ilusão da casa
8. Valérie
9. Só você manda em você
10. Subte
11. Para Lindsay
12. Estrela, estrela
13. À beça
14. Quiet music

 

 

NÃO É CÉU
Vitor Ramil

Não é céu sobre nós
Dele essa noite não veio
E muito menos vai o dia chegar

Se chegar, não é sol
Quem sabe a luz de um cigarro
Que desaba do vigésimo andar

É fogo, mora
Deixa essa brasa descer lá fora
Deixa o mundo todo queimar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Se fosse o céu que se conta
Não seria a ponta acesa a brilhar

Se brilhou, não é sol
Se fosse o sol desabando
Nem meu quarto ia poder te salvar

É fogo, mora
Gente na brasa a gritar lá fora
Só nos falta Nero cantar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Não vimos noite passando
E essa luz não fez o galo cantar

Se cantou, não é sol
Dia nascendo normal
A gente acorda e não costuma gritar

É fogo, mora
Deixa essa brasa sumir lá fora
Deixa o galo nos acordar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

 

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ESPAÇO
Vitor Ramil

Quarto de não dormir
Sala de não estar
Porta de não abrir
Pátio de sufocar

Carta no corredor
Eu não vou nem pegar
A voz no gravador
Não quero escutar

A lua é um farol
O vento, um assobio
A foto é um out-door
Teu rosto em 3x4
Mostra que

Tudo
Na madrugada
Insiste em ficar
Já que existe
Tanto espaço em mim

Juro
Na luz do dia
Todas as coisas
Vão me perder
Como te perdi

 

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GRAMA VERDE
Música: André Gomes e Vitor Ramil
Letra: Vitor Ramil


Pintei de verde a grama em dia claro
De verde forte e falso e vivo e raro
Que seja a grama brutal
Se eu quero a cena ideal

Na luz do dia não passei a tinta
Que luz tão clara só com sol se pinta
Que seja o dia real
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar

Pintei a grama pro teu passo é claro
Teu passo forte e falso e vivo e raro
Que seja o passo banal
Se eu quero a cena ideal

Olhando a cena é que eu me sinto vivo
Deixando o tempo abrir o teu caminho
Pela grama verde eu quero te ver passar
Pela grama verde eu quero te ver passar
Só passar

 

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UM DIA VOCÊ VAI SERVIR A ALGUÉM
(GOTTA SERVE SOMEBODY)

Bob Dylan
(Versão: Vitor Ramil)


Você pode ser rei no país do futebol
Pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
Você pode ser um mago e vender livros de montão
Pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Pode ser incendiário e fazer um índio arder
Você pode ser o índio vendo a chama acender
Pode ser um bom ladrão, pode ser um mau juiz
Pode ter um passado limpo, pode ter uma cicatriz

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Você pode estar na mídia sem saber porque
Você pode ser dono de uma rede de TV
Você pode dar o fora tendo tudo pra ficar
Adotar um nome diferente, você pode mesmo se isolar

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Você pode trabalhar na construção civil
Pode estar desempregado, com a vida por um fio
Você pode ter poder, fazer coisas que ninguém fizer
Pode ter mulheres numa jaula, pode ter as drogas que quiser
Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Você pode desejar a cura com Lacan
Você pode procurar os serviços de um xamã
Você pode ser um pregador, chutar os santos do altar
Você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Você pode ser demente, pode ser doutor
Você pode ser sincero, pode ter rancor
Você pode ser um crente, você pode ser ateu
Pode ser um leitor vaidoso ou uma miss que nunca leu

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

Você pode ser turco, pode ser nissei
Pode estar ali na esquina, estar onde jamais pensei
Você pode me adular, você pode me esquecer
Você pode estar me ouvindo agora, você pode mesmo nem saber

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém

 

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FOI NO MÊS QUE VEM
Vitor Ramil

Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu

Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

 

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O VELHO LEON E NATÁLIA EM COYOACÁN
Vitor Ramil
(poema de Paulo Leminski)


desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

 

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A ILUSÃO DA CASA
Vitor Ramil

As imagens descem como folhas
No chão da sala
Folhas que o luar acende
Folhas que o vento espalha

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens descem como folhas
Enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens se acumulam
Rolam no pó da sala
São pequenas folhas secas
Folhas de pura prata

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens se acumulam
Rolam enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

As imagens enchem tudo
Vivem do ar da sala
São montanhas secas
São montanhas enluaradas

Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens enchem tudo
Vivem enquanto falo

Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei

 

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VALÉRIE
Vitor Ramil

O rosto se perdeu
O gesto se desfez
Depois daquele beijo teu
Nada real ficou

Nenhuma lágrima
Nenhuma dor sequer
Só o mistério desse amor
Pelo que já não sei

Valérie
Quero te ver
Só pra te esquecer

 

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SÓ VOCÊ MANDA EM VOCÊ
(YOU’RE A BIG GIRL NOW)

Bob Dylan
Versão: Vitor Ramil


Um papo breve e tão sutil
Depois de tudo, me confundiu
Eu tô de novo na chuva, oh!
Você em terra firme
Sempre certa do que dizer
Pois só você manda em você

Pássaro tão só no fio de luz
Canta uma canção que me seduz
Eu me pareço com ele, oh!
Cantando só pra você
Que nem ao menos pode me ouvir
Eu canto pra me consumir

O tempo é uma nave que corre demais
Mas reconheço o que deixamos pra trás
Eu posso mudar, eu juro, oh!
Mas que poder você tem!
Posso mudar pra valer
É só você também querer

O amor é simples, fácil dizer
Você sempre soube disso, acabo de aprender
Também sei onde te encontro, oh!
Talvez no quarto de alguém
Mas não vai me custar entender
Pois só você manda em você

Noite escura, raios no ar
Qual o sentido de tanto andar
Eu tô vagando na chuva, oh!
A dor vagando em mim
Como um tiro no coração
Desde o começo dessa canção

 

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SUBTE
Vitor Ramil

Para Josi Garcia


Yo dejo el sol detrás de mí
Y bajo hondo en la ciudad
La lengua que hablan por aqui
Es toda hierro y oscuridad
Del tunel llega una luz
La luna me viene a buscar

Hay tanta gente en el vagón
Todos me miran sin parar
Sus ojos sueñan mi visión
¿Que hago yo en este lugar?
El tunel me hace comprender
La luna me puede llevar

Sur
Subtemoon
Subtedream
Yo viajo en el Subtesur
Yo viajo en el Subtemí

Yo veo el tiempo en la pared
Que pasa y siempre queda allá
Yo veo la vida en el tren
Inmóvil puedo en él viajar
El tunel negro es la razón
La luna me hace delirar

Sur
Subtemoon
Subtedream
Yo viajo en el Subtesur
Yo viajo en el Subtemí

 

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PARA LINDSAY
Vitor Ramil
(poema de Allen Ginsberg em tradução de Cláudio Willer)


Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há vinte e sete anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho

 

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ESTRELA, ESTRELA
Vitor Ramil

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer

Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é

No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos

E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs

Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão

Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção

 

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À BEÇA
Vitor Ramil

Dia de sair
Ir naquela idéia radical
Tudo o mesmo, nada sendo igual
Tudo pra valer

Dia de sair
Ritmo daqueles de viver
Tudo exato e fora do lugar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Dia de sair
A palavra dita assim no mais
Tudo bem pensado, sem pensar
Tudo pra valer

Dia de sair
De dizer verdades por dizer
Versos sobre a areia à beira mar
Tudo pra durar

Com que roupa eu vou
A tudo que você me convidou?
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Mais que o velho o novo já gastou
Mais que um pano novo
Eu quero pôr
Um novo à beça
À beça, à beça, à beça

Com que roupa eu vou?
Com que roupa eu vou?
Dia de sair
À beça!

 

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QUIET MUSIC
Vitor Ramil

There is a picture
Cold and rain
Quiet music
In my brain

Fallen angles
Living lines
Plastic colours
Sleepless nights

There is a sculpture
Stream and glow
Quiet music
In my soul

Cold, deep inside it is cold
Where I shape the stream
Leave me there
Rain, where I shape the rain
Deep inside it glows
Let me stay there

There is a picture
Joy and pain
Quiet music
In my brain

Fallen angles
Living lines
Plastic colours
Sleepless nights

There is a sculpture
Steel and snow
Quiet music
In my soul

Joy, deep inside it is joy
Where I shape the steel
Leave me there
Pain, where I shape the pain
Deep inside it snows
Let me stay there

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